A Septuaginta — conhecida pela abreviação LXX — é a tradução mais antiga das Escrituras Hebraicas para o grego, produzida em Alexandria entre os séculos III e I a.C. Mais do que uma simples tradução, ela se tornou o texto sagrado adotado pelos judeus da Diáspora e, posteriormente, a base escriturística dos primeiros cristãos.
O texto que formou o Novo Testamento
Quando os autores do Novo Testamento escreveram, o hebraico massorético ainda não existia na forma que conhecemos hoje. A Septuaginta já circulava havia séculos e era amplamente utilizada nas sinagogas fora da Judeia. Por isso, a linguagem, as imagens e a teologia do Novo Testamento dialogam diretamente com a LXX — não com edições hebraicas posteriores. Conceitos fundamentais como Logos, Kyrios, Dikaiosynē e Sōtēria nasceram nesse texto grego e deram forma à cristologia que conhecemos.
Estima-se que cerca de 80% das citações do Antigo Testamento presentes no Novo Testamento seguem o texto da Septuaginta, e não o hebraico. Ler a LXX é ler a Bíblia no mesmo ambiente intelectual e espiritual do cristianismo primitivo.
Mais antiga que o Texto Massorético
A maioria das Bíblias modernas traduz o Antigo Testamento a partir do Texto Massorético — uma tradição hebraica fixada entre os séculos VII e X d.C. A Septuaginta, traduzida mais de mil anos antes, preserva leituras, passagens e nuances que o texto massorético posterior alterou, condensou ou simplesmente omitiu. Quanto mais antigo o testemunho textual, mais próximo das fontes originais — e a LXX é a testemunha completa mais antiga que possuímos.
Um exemplo que revela o que se perdeu: Jó 2:9
No texto massorético, a esposa de Jó pronuncia uma única frase dura e breve. Na Septuaginta, porém, encontramos um lamento extenso e profundamente humano — um discurso inteiro que desapareceu da tradição hebraica posterior. Veja a comparação abaixo.