O que é a Bíblia Septuaginta? Guia completo para iniciantes

Já se perguntou: “O que significa a Septuaginta?”, essa dúvida pode ser comum a muitos cristãos que estão estudando a Bíblia, principalmente o Antigo Testamento — e também obviamente os que estudam grego. Neste post vamos tratar de várias perguntas que respondidas de maneira bem objetiva dará a cada leitor uma visão mais próxima desse texto, talvez manuscrito, ou podemos dizer conteúdo, ou ainda: um projeto; que começou 300 anos a.C

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A Grande Pergunta é: O que é a Bíblia Septuaginta (LXX)?

Septuaginta (LXX) é a tradução do Antigo Testamento Hebraico para o grego koiné, uma das primeiras traduções do Antigo Testamento; sua origem aconteceu no século III a.C. e durou até o século I a.C., sendo utilizada posteriormente pelos Apóstolos e citada diversas vezes no Novo Testamento. Sabemos que existem diversas traduções da Bíblia, mas hoje vamos esclarecer o que de fato é a Septuaginta (LXX) e qual é a importância e influência histórica que ela tem, por ser uma das traduções mais antigas e importantes, tendo implicações teológicas, culturais e na formação do cânon bíblico.

Contexto/História

Para entendermos a origem do nome “Septuaginta”, precisamos entender como ela surgiu; desta forma conseguimos compreender com clareza o contexto deste nome. Como dito acima, a Septuaginta (LXX) surgiu em Alexandria, no Egito, entre os séculos III e I a.C. Na época, o Egito estava sob domínio grego e Alexandre, o Grande, havia conquistado uma vasta região, formando um império massivo que se estendia da Grécia até a Índia; uma de suas conquistas mais importantes foi o Egito. Após a morte de Alexandre, o Grande, em 323 a.C, o seu império foi dividido entre seus generais (os diadoch) e Ptolomeu ficou com o Egito, futuramente se proclamando faraó em 305/304 a.C., fundando, assim, a Dinastia Ptolemaica.

A título de curiosidade, os Ptolomeus não eram meros generais conquistadores que só pensavam em violência e dominação; eles eram, acima de tudo, pessoas apaixonadas pela cultura grega que queriam transformar Alexandria em uma imensa capital cultural. Justamente por isso que eles construíram a Biblioteca de Alexandria na intenção de reunir ali todo o conhecimento humano disponível na época. Alguns dizem que eles queriam ter literalmente uma cópia de cada livro existente.

É aí, então, que Aristeias entra na história; em certos relatos, ele é descrito como um judeu que trabalhava na corte do Rei Ptolomeu II Filadelfos (descende do primeiro Rei Ptolomeu), no Egito. Em outras, Aristeias é apenas citado como um oficial da corte de Ptolomeu II Filadelfos. Aristeias escreveu uma carta chamada “Carta de Aristeias a Filócrates” e, até os dias atuais, esta carta é reconhecida como uma das fontes que contam a origem da Septuaginta (LXX).

Por muitos, a carta de Aristeias é considerada uma obra pseudoepigráfica (uma obra atribuída a alguém que pode não ter existido); a carta foi escrita em grego e contém explicações sobre como a Torá foi traduzida para o grego. Nela, há o relato do pedido do Rei Ptolomeu II Filadelfo para o sumo sacerdote judeu Eleazar em Jerusalém, que pediu para que sábios judeus realizassem a tradução da Torá para o grego a fim de acrescentá-la na Biblioteca de Alexandria.

De onde vêm o nome Septuaginta?

Na carta de Ariteias há um trecho onde podemos identificar a história que explica por qual motivo a Bíblia foi nomeada Septuaginta (em latim significa setenta ou LXX).

“O Memorial de Demétrio ao grande rei. Uma vez que me deste instruções, ó rei, que os livros necessários para completar sua biblioteca sejam reunidos, e que aqueles com defeito sejam consertados, dediquei-me com o máximo cuidado ao cumprimento de teus desejos, e agora tenho a seguinte proposta para apresentar a ti. Os livros da lei dos judeus com alguns outros poucos estão ausentes da biblioteca. Eles são escritos em caracteres e linguagem hebraicos e foram interpretados descuidadamente, e não representam o texto original como fui informado por aqueles que sabem; pois eles nunca tiveram o cuidado de um rei para protegê-los. É necessário que estes sejam feitos precisos para sua biblioteca, pois a lei que eles contêm, na medida em que é de origem divina, é cheia de sabedoria e livre de toda mancha. Por esta razão, os literatos e poetas e a massa de escritores históricos se mantiveram afastados de se referir a estes livros e aos homens que viveram e estão vivendo de acordo com eles, porque sua concepção de vida é tão sagrada e religiosa, como diz Hecateu de Abderita. Se te agradar, ó rei, uma carta será escrita ao sumo sacerdote em Jerusalém, pedindo a ele que envie seis anciãos de cada tribo, homens que viveram a vida mais nobre e são mais habilidosos em sua lei, para que possamos descobrir os pontos em que a maioria deles está de acordo, e assim, tendo obtido uma tradução precisa, podemos colocá-la em um lugar conspícuo de uma maneira digna da obra em si e de seu propósito.”

A carta original de Aristeias pode ser encontrada no site oficial da Septuaginta. Como conta a história, podemos ver que foram enviados 6 anciãos de cada tribo, totalizando, assim 72 enviados para fazer a tradução da Lei Judaica para o grego. Por isso, a tradução ficou conhecida como a tradução dos 70 e ainda sim; há discussões até os dias atuais sobre 70 ou 72 escribas.

No início, o termo se referia apenas à tradução dos cinco primeiros livros da Torá (ou Pentateuco). São estes: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Segundo a tradição, foi esta parte que, inicialmente, os 72 anciãos traduziram, mas com o tempo o termo passou a se referir a todos os livros traduzidos do hebraico para o grego, incluindo Profetas, Escritos e os Deuterocanônicos (livros que não fazem parte do cânon hebraico).

Flávio Josefo e a Septuaginta

Flávio Josefo é um historiador judeu que afirma que os sábios judeus realizaram a tradução do Pentateuco para o grego koiné no século III a.C. As demais traduções vieram posteriormente e é por isso que, quando falamos sobre o período de desenvolvimento da Septuaginta, citamos do século III até o I a.C. Durante estes anos, os demais livros foram sendo traduzidos e adicionados à Septuaginta. Não podemos afirmar com certeza a localização ou até mesmo dizer uma data precisa em que cada tradução foi feita. Os cinco primeiros livros foram traduzidos muito bem, com rigor e bastante cuidado; já os demais, por muitos, são considerados como traduções não tão exemplares, já que a qualidade delas varia bastante de livro para livro.

A Septuaginta e a Cultura Grega

A Septuaginta carrega um impacto cultural enorme, visto que, na época em que se iniciaram os trabalhos de tradução, todo um contexto histórico estaria envolvido paralelamente nisso tudo. Na época, muitos judeus viviam em cidades do Egito, principalmente em Alexandria. Por estarem lá, eles conviviam no que podemos chamar de ambiente helenizado, isto é, influenciado pela cultura grega e, por causa do convívio, com o passar dos anos, os judeus foram perdendo o domínio da fala hebraica, falando majoritariamente o grego. Isto ocasionou uma barreira linguística, pois eles queriam ler as escrituras sagradas, mas não conseguiam. É quase como se você, que está lendo, herdasse uma Bíblia de sua família, mas não pudesse lê-la por não entender o que está escrito.

Podemos observar que houve uma necessidade real da comunidade judaica que vivia em Alexandria; uma necessidade real de ter as escrituras hebraicas traduzidas para o grego e, muito provavelmente por causa disso, essa iniciativa não foi apenas do rei, mas também de toda uma comunidade judaica que organicamente se desenvolveu lá.

A Bíblia que Jesus e os discípulos utilizaram

Agora, saímos de a.C para d.C. Após Jesus ter nascido em Belém da Judeia, no sul de Jerusalém, ter ido e retornado do Egito para finalmente ter crescido em Nazaré da Galileia, nós podemos entrar na utilização da Septuaginta durante a época de Jesus e dos discípulos.

Nos dias de Jesus, o mundo judaico estava entre duas culturas: a tradição hebraica e a civilização helenística. O hebraico, como dito anteriormente, era o idioma sagrado das Escrituras, o qual foi gradualmente substituído pelo aramaico e o grego koiné no uso cotidiano do povo judeu.

Com a tradução em grego, a Septuaginta conseguiu espalhar o judaísmo com uma maior facilidade pelo mundo greco-romano. A Septuaginta se tornou a Bíblia da Diáspora Judaica, a Bíblia dos judeus que viviam fora de Israel. Essa versão não foi apenas uma tradução literal, mas também uma interpretação teológica, que expressava o pensamento bíblico em termos compreensíveis para o mundo grego.

Os Apóstolos e a Septuaginta

Os apóstolos também utilizaram a LXX em suas epístolas.

Paulo, formado aos pés de Gamaliel, conhecia profundamente o hebraico, mas escreveu suas cartas em grego, citando o Antigo Testamento conforme a redação da LXX.

Exemplo notável ocorre em Hebreus 10:5:

“Sacrificio e oferenda não quiseste, mas um corpo ajustaste para mim; holocausto e sacrifício pela transgressão não exigiste.”

Essa frase segue a Septuaginta (Salmo 40:6). No hebraico massorético, o texto diz "ouvidos me abriste" - uma diferença teológica profunda.

Do mesmo modo, Romanos 3:12-18, Atos 15:16-17 e 1 Pedro 2:6-8 são citações diretas da LXX. Estudos modernos mostram que mais de 80% das citações do Antigo Testamento no Novo seguem a redação da Septuaginta, não a do texto hebraico tradicional.

veracidade de que os apóstolos e evangelistas utilizaram a Septuaginta está mais do que comprovada; diversas citações que eles fazem no Novo Testamento estão diretamente ligadas a passagens e versículos do Antigo Testamento, e as mesmas vêm da versão grega escrita na Septuaginta. É dito que das 350 citações feitas no Novo Testamento em referência ao Antigo, 300 provêm da versão grega.

Os primeiros séculos do cristianismo foram marcados pela autoridade da LXX.

Pais da Igreja como Justino Mártir, Irineu, Clemente de Alexandria e Agostinho consideravam-na inspirada, pois era a mesma versão usada por Cristo.

Séculos depois, com a fixação do texto hebraico massorético, a LXX foi sendo, como testemunho textual autêntico, relegada — até ser redescoberta pelos estudiosos modernos

Conclusão

A Septuaginta (LXX) não pode ser considerada uma simples tradução das Escrituras Hebraicas para o grego koiné; ela representa muito mais do que isso. É uma ponte histórica que faz a conexão entre dois mundos: o judaísmo tradicional e a civilização helenística. Isto contribui, e muito, para a expansão do cristianismo primitivo.

Podemos observar que sua origem está envolta em tradições e relatos; um exemplo é a própria carta de Aristeias, que nos mostra uma necessidade real da comunidade judaica que vivia em Alexandria, uma comunidade que já não dominava mais a língua hebraica. Muito provavelmente, nem os 72 sábios que iniciaram este trabalho no século III a.C. Poderiam imaginar que esta tradução seria utilizada por Jesus e seus discípulos e se tornaria uma peça fundamental para a expansão da Igreja primitiva.

Não há como negar a influência da Septuaginta (LXX) no Novo Testamento; 80% das citações feitas ao Antigo Testamento provêm da versão grega, o que nos mostra que os autores consideraram a LXX como Escritura inspirada.

Ter acesso e compreender a Septuaginta é essencial para qualquer estudante sério da Bíblia; ela nunca pode ser desconsiderada ou deixada de lado, pois ela nos ajuda a entender o contexto em que o Novo Testamento foi escrito e como os primeiros cristãos liam e interpretavam o Antigo Testamento.

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